Francinildo Kleyson

O CARRO DE SEU ANÉSIO

Anésio tinha um sonho
Igual qualquer cidadão
Queria comprar um carro
E viver a sensação
De ser chamado de rico
Essa era a sua intenção

Passou então a fazer
Discreta economia
Guardava o lucro da venda
Em uma lata vazia
E foi juntando dinheiro
Pra comprar o que queria

Por vezes a sua mulher
Reclamava o apurado
Ele dizia que o lucro
Havia sido travado
Por causa da inflação
Já tava quase quebrado

Um ano depois a lata
Não cabia mais dinheiro
Resolveu então abri-la
E foi pra rua ligeiro
Pra realizar seu sonho
De prospero bodegueiro

Sem dizer nada em casa
Começou a pesquisar
O preço de um automóvel
E as formas de pagar
E como é que se fazia
Para poder pilotar

A venda virou pregão
Toda hora um vendedor
Vinha lhe mostrar um cano
E assim não demorou
Em pouco tempo Anésio
Seu sonho realizou


Lá estava o Fuscão
Parado em frente da venda
Brilhando feito catarro
Saiu como a encomenda
E Anésio satisfeito
Apreciava a contenda

A meninada da rua
Queria ver e tocar
No cano do bodegueiro
Mas ele sempre a gritar
Mandava todos saírem
Porque podiam arranhar

Foi então que a mulher
Desse nobre cidadão
Ouviu a festa na rua
E quis saber a razão
Os meninos lhe contaram
Ela quase foi ao chão

Correu foi até a venda
E perguntou pro marido
Que carro era aquele
Se ele tinha bebido
Ou de urna vez por todas
Havia enlouquecido

Ele sorriu e abraçou
sua nobre companheira
E disse “vamo até lá”
Deixa de pensar besteira
Vamos logo inaugurar
Passeando pela feira

Eia disse “ocê ta doido”
Tu nem sabe dirigis
Eu quero saber de onde
Esse carro foi sair
Se tu não tinha dinheiro
De onde isso pôde vir7

Eu estava era poupando
Explicou o bodegueiro
Faz um ano que estou
Guardando sempre dinheiro
Para comprar esse cano
Deixei de ser pirangueiro

A mulher se conformou
Mas sua preocupação
Era de ver o marido
Assumir a direção
Sem saber nem dirigir
Carroça de prestação

Mas, Anésio era esperto
E arranjou um professor
Um tal de Ciço moreno
A quem o carro comprou
E todo dia de tarde
Treinava com o instrutor


Sem ligar pros comentários
Anésio continuou
Praticando na estrada
E quando se aperfeiçoou
Na arte de dirigir
Em doutor se transformou

Descobriu que a profissão
Estava prejudicada
Por conta dos transeuntes
Que não andam na calçada
Por isso bateu nuns três
E já deu meia freada

Outra coisa impossível
É o lava carro do posto
Mal cabe a roda do carro
E parece que está torto
Já caiu dentro da vala
Que os pneus ficaram solto


Na festa de São José
Fato estranho aconteceu:
Tirou um fino no carro
Mesmo assim não percebeu
Que perdera um pára-choque
E a carlota de um pneu

Pra proteger o automóvel
Da chuva e do mau tempo
Ele comprou uma lona
Patenteou o invento
O primeiro a construir
Roupa de carro a contento

Além desses atropelos
Ainda tinha a mulher
Todo dia reclamando
E apelando para a fé
Pra ver se ele desistia
E voltava a andar a pé

Mas o amor de Anésio
Por sua nova paixão
Passou de simples convívio
E virou obsessão
“Não vivo mais sem meu carro”
Esse era o seu refrão

O fator psicológico
Era o pior disso tudo
Anésio era nervoso
Atem de ser cabeçudo
Quando ia dirigir
Ficava todo sisudo

Dava logo um frenesi
E uma dor de barriga
Quando pensava em sair
Parecia uma mandinga
Tinha que ir ao banheiro
Vivia nessa fadiga


Essa paixão perdurou
Seis meses ou pouco mais
Na vida do bodegueiro
Indo pra frente e pra trás
Entre desgosto e agonia
Qualquer paixão se desfaz

Anésio vendeu o carro
Voltou a andar a pé
Foi tomar conta da venda
Satisfez sua mulher
Deixou de arriscar a vida
Voltou a ser o que é

O homem tem os seus sonhos
Seus desejos e paixões
Faz bem quem sempre persiste
Passe ou não decepções
Pois só se aproveita a vida
Dela vivendo emoções


FIM