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Micaruba
Pitimbu
O CARRO DE SEU ANÉSIO
Passou então a fazer Discreta economia Guardava o lucro da venda Em uma lata vazia E foi juntando dinheiro Pra comprar o que queria
Por vezes a sua mulher Reclamava o apurado Ele dizia que o lucro Havia sido travado Por causa da inflação Já tava quase quebrado
Um ano depois a lata Não cabia mais dinheiro Resolveu então abri-la E foi pra rua ligeiro Pra realizar seu sonho De prospero bodegueiro
Sem dizer nada em casa Começou a pesquisar O preço de um automóvel E as formas de pagar E como é que se fazia Para poder pilotar
A venda virou pregão Toda hora um vendedor Vinha lhe mostrar um cano E assim não demorou Em pouco tempo Anésio Seu sonho realizou
Lá estava o Fuscão Parado em frente da venda Brilhando feito catarro Saiu como a encomenda E Anésio satisfeito Apreciava a contenda
A meninada da rua Queria ver e tocar No cano do bodegueiro Mas ele sempre a gritar Mandava todos saírem Porque podiam arranhar
Foi então que a mulher Desse nobre cidadão Ouviu a festa na rua E quis saber a razão Os meninos lhe contaram Ela quase foi ao chão
Correu foi até a venda E perguntou pro marido Que carro era aquele Se ele tinha bebido Ou de urna vez por todas Havia enlouquecido
Ele sorriu e abraçou sua nobre companheira E disse “vamo até lá” Deixa de pensar besteira Vamos logo inaugurar Passeando pela feira
Eia disse “ocê ta doido” Tu nem sabe dirigis Eu quero saber de onde Esse carro foi sair Se tu não tinha dinheiro De onde isso pôde vir7
Eu estava era poupando Explicou o bodegueiro Faz um ano que estou Guardando sempre dinheiro Para comprar esse cano Deixei de ser pirangueiro
A mulher se conformou Mas sua preocupação Era de ver o marido Assumir a direção Sem saber nem dirigir Carroça de prestação
Mas, Anésio era esperto E arranjou um professor Um tal de Ciço moreno A quem o carro comprou E todo dia de tarde Treinava com o instrutor
Sem ligar pros comentários Anésio continuou Praticando na estrada E quando se aperfeiçoou Na arte de dirigir Em doutor se transformou
Descobriu que a profissão Estava prejudicada Por conta dos transeuntes Que não andam na calçada Por isso bateu nuns três E já deu meia freada
Outra coisa impossível É o lava carro do posto Mal cabe a roda do carro E parece que está torto Já caiu dentro da vala Que os pneus ficaram solto
Na festa de São José Fato estranho aconteceu: Tirou um fino no carro Mesmo assim não percebeu Que perdera um pára-choque E a carlota de um pneu
Pra proteger o automóvel Da chuva e do mau tempo Ele comprou uma lona Patenteou o invento O primeiro a construir Roupa de carro a contento
Além desses atropelos Ainda tinha a mulher Todo dia reclamando E apelando para a fé Pra ver se ele desistia E voltava a andar a pé
Mas o amor de Anésio Por sua nova paixão Passou de simples convívio E virou obsessão “Não vivo mais sem meu carro” Esse era o seu refrão
O fator psicológico Era o pior disso tudo Anésio era nervoso Atem de ser cabeçudo Quando ia dirigir Ficava todo sisudo
Dava logo um frenesi E uma dor de barriga Quando pensava em sair Parecia uma mandinga Tinha que ir ao banheiro Vivia nessa fadiga
Essa paixão perdurou Seis meses ou pouco mais Na vida do bodegueiro Indo pra frente e pra trás Entre desgosto e agonia Qualquer paixão se desfaz
Anésio vendeu o carro Voltou a andar a pé Foi tomar conta da venda Satisfez sua mulher Deixou de arriscar a vida Voltou a ser o que é
O homem tem os seus sonhos Seus desejos e paixões Faz bem quem sempre persiste Passe ou não decepções Pois só se aproveita a vida Dela vivendo emoções
FIM